Um certo sorriso: Uma Resenha de Françoise Sagan
Um Certo Sorriso começa dentro de uma tarde quase indistinguível das outras. Dominique, estudante de direito na Sorbonne, circula entre cafés, aulas e conversas sem encontrar nelas um envolvimento duradouro. Françoise Sagan não trata esse tédio como simples falta de ocupação. Ele funciona como uma maneira de perceber o mundo e como justificativa antecipada para perturbá-lo. A falta de intensidade parece pior do que o risco.
A narradora tem vinte anos, mas evita apresentar a juventude como pureza. Ela reconhece a própria indiferença, observa com ironia o namorado Bertrand e imagina que compreende as regras do desejo adulto. Sua inteligência é real. O erro começa quando ela confunde capacidade de análise com imunidade emocional.
O relato em primeira pessoa mantém o leitor preso a essa contradição. Dominique conta os gestos que a comprometem e raramente tenta parecer inocente. Ainda assim, escolhe palavras que diminuem a gravidade do caso, como se tudo fosse uma experiência previsível entre pessoas lúcidas. A franqueza também pode servir à defesa.
Em 👉 O Amante, de Marguerite Duras, uma voz posterior retorna a uma relação marcada por juventude, diferença de experiência e desejo. Duras fragmenta a memória e expõe as forças coloniais e econômicas do encontro. Ela trabalha com uma linha narrativa mais limpa e com um ambiente burguês parisiense. Nos dois livros, porém, a jovem narradora procura controlar pelo estilo uma experiência que excedeu seu domínio.
Um Certo Sorriso não converte tédio em profundidade automática. Dominique pode ser perspicaz e banal, cruel e vulnerável, independente e ansiosa por reconhecimento. O romance mostra quando essa ambivalência deixa de ser pose e produz consequências.

Bertrand oferece companhia sem romper a apatia
Bertrand é namorado e primeiro amante de Dominique. Ele pertence ao mesmo universo estudantil, compartilha cafés e referências intelectuais e parece oferecer uma relação sem grandes perigos. A proximidade, contudo, não produz entusiasmo. Dominique sente ternura por ele, mas se irrita com seus debates e com o esforço de parecer espirituoso. O afeto existe sem adquirir urgência.
Reduzi-lo a obstáculo entre a protagonista e Luc distorce o romance. Bertrand não é vilão nem simples criança diante do tio experiente. Sua limitação nasce do modo como Dominique o vê. Como a história permanece dentro da consciência dela, o rapaz se torna previsível antes que o leitor tenha acesso independente à sua complexidade.
O tédio liga o livro ao existencialismo. Dominique conhece o vocabulário da liberdade e da ausência de garantias, mas o utiliza superficialmente. Ela quer agir sem aceitar que uma escolha reorganiza relações. Em 👉 A Náusea, de Jean-Paul Sartre, a contingência abala a estabilidade do real. A escritora reduz a escala filosófica e mostra a liberdade transformada em álibi elegante.
Quando Dominique se aproxima de Luc, Bertrand percebe a ameaça e depois se recusa a dividir o afeto dela. Sua reação pode conter ciúme e orgulho, porém estabelece um limite que a narradora evitava formular. O caso não acontece fora do relacionamento existente. Ele o altera, mesmo quando Dominique prefere considerar sua vida emocional como conjunto de experiências separadas.
Um Certo Sorriso não lamenta um grande amor juvenil. A relação já estava enfraquecida. Importa a facilidade com que Dominique usa a falta de paixão para não responder pela dor alheia. A apatia não a libera da responsabilidade.
Luc reconhece a jovem que ele sabe conduzir
Luc aparece como o contrário imediato de Bertrand. É um homem de negócios na casa dos quarenta, viajado, casado e habituado a aventuras. Sua segurança livra Dominique do esforço de explicar o próprio desencanto. Ele reconhece nela uma cumplicidade feita de ironia e cansaço. A semelhança esconde uma diferença de poder.
Os dois reconhecem a atração e conversam antes de agir. Essa transparência parece retirar o perigo. Luc não promete abandonar Françoise ou transformar a aventura em amor. Dominique aceita porque acredita que também pode desejar sem se apegar. O acordo é claro, mas a experiência dos participantes não é equivalente.
Luc já conhece a distância entre prazer e compromisso. Dominique conhece sobretudo a ideia dessa distância. Ele pode retornar ao casamento e à rotina, enquanto ela usa o encontro para testar uma identidade ainda instável. Um Certo Sorriso não precisa transformá-lo em sedutor monstruoso para tornar visível essa assimetria. Consentimento não significa igualdade emocional.
Em 👉 Casais trocados, de John Updike, a circulação sexual também parece oferecer uma comunidade livre das regras antigas. Updike acompanha casais casados em uma rede suburbana, enquanto ela concentra o conflito em quatro figuras e na diferença de idade. Ambos expõem um mecanismo semelhante: mudar de parceiro pode alterar a excitação sem modificar a relação de cada pessoa com a própria insatisfação.
Em Um Certo Sorriso, Luc sente afeto por Dominique e não deseja destruí-la. Isso o torna plausível, não inocente. Ele aprecia a vivacidade dela, mas encerra a experiência quando deixa de ser leve. O controle permanece com quem conhecia o fim possível.

Françoise converte o adultério em traição pessoal
Françoise, esposa de Luc, não permanece apenas no fundo da narrativa. Ela acolhe Dominique, oferece presentes, adota uma intimidade quase maternal e a inclui em um mundo adulto que a jovem admira. Essa amizade muda a natureza moral do caso. Dominique não trai somente Bertrand nem participa apenas da infidelidade de Luc. Ela fere uma mulher que lhe ofereceu confiança.
A protagonista percebe o problema antes de Cannes. Sua culpa não surge como descoberta tardia. Ela sabe que Françoise pode sofrer, mas trata esse conhecimento como uma consideração entre outras. Desejo e curiosidade pesam mais. A falha moral está na capacidade de ver e prosseguir.
Françoise também não deve ser idealizada como esposa passiva e silenciosamente resignada. Sua generosidade possui força, mas a coloca numa posição vulnerável. Quando Pierre revela o caso, a perda envolve o marido e a amiga. A reconciliação posterior com Dominique não apaga o dano. Ela demonstra uma forma adulta de afeto que não depende de fingir que nada aconteceu.
Essa tensão dialoga com 👉 O Imoralista, de André Gide. Michel interpreta a descoberta de seus desejos como libertação e subestima o custo imposto a quem o acompanha. Dominique não constrói uma filosofia tão ampla para si mesma, mas também confunde sinceridade interior com dispensa de obrigação. Nos dois livros, a autenticidade pode mascarar o egoísmo.
Um Certo Sorriso recusa a rivalidade feminina convencional. Françoise não precisa ser humilhada para que Dominique pareça vitoriosa. A afeição entre as duas torna o adultério menos glamouroso. A densidade da esposa aparece por gestos, não por explicações em sua voz.
Cannes isola quinze dias de prazer
Dominique e Luc passam quinze dias em Cannes. O deslocamento cria um espaço separado de Bertrand, Françoise, das aulas e dos hábitos parisienses. Hotel, mar, sol e refeições organizam uma rotina dedicada ao prazer. A viagem parece confirmar que os dois podem viver o caso como intervalo controlado. As férias dão fronteiras à transgressão.
Essa delimitação é parte do acordo. Há um começo, um prazo e um retorno previsto. Dominique acredita que a consciência do fim impedirá o apego. Contudo, a intensidade nasce precisamente da suspensão temporária. Sem tarefas comuns e sem a presença das pessoas traídas, a relação pode parecer mais completa do que seria na vida cotidiana.
Cannes não se reduz a cartão-postal. A elegância protege o casal das consequências imediatas e embeleza sua irresponsabilidade. O prazer é verdadeiro. Luc e Dominique encontram uma facilidade ausente com Bertrand. A literata questiona o modo como essa felicidade foi obtida sem precisar negá-la.
O período também testa a diferença entre ambos. Luc desfruta o presente porque o considera limitado. Dominique tenta fazer o mesmo, mas começa a armazenar cada sensação como prova de algo maior. Quando o retorno se aproxima, aquilo que para ele permanece uma boa lembrança já funciona para ela como promessa não declarada. O mesmo tempo produz dois significados.
A viagem revela o problema central de Um Certo Sorriso. Nenhum contrato determina antecipadamente o sentimento. A clareza reduz enganos, mas não impede a transformação causada pela intimidade. Dominique escolhe o risco com lucidez parcial. A inexperiência não anula sua decisão, mas explica a confiança excessiva nas regras anteriores ao desejo.
O retorno revela a assimetria do acordo
Em Paris, o caso perde a moldura que o tornava leve. Dominique descobre que se apaixonou ou, pelo menos, que não consegue separar Luc da felicidade experimentada em Cannes. Procura prolongar o vínculo e sofre diante da distância dele. Luc, ao contrário, conserva a interpretação inicial. Para ele, a aventura foi agradável e deve terminar sem alterar a estrutura de sua vida. A dor começa quando as versões deixam de coincidir.
Essa diferença não invalida retroativamente o prazer. O romance evita sugerir que os quinze dias foram falsos porque não conduziram a um futuro comum. O que muda é a relação de Dominique com a lembrança. Cada cena feliz se converte em argumento contra o fim, enquanto Luc a mantém no passado.
Outras pessoas impedem que o segredo permaneça privado. Catherine informa Bertrand. Pierre, depois de ver o casal em Cannes, conta a Françoise. Ciúme, lealdade e interferência podem se misturar, mas o efeito é o mesmo. A rede social recupera aquilo que os amantes tentaram isolar.
Dominique atravessa então uma humilhação sem grande espetáculo público. Sua fome, sua espera e sua atenção obsessiva a Luc contradizem a imagem de jovem desapegada que cultivava. O corpo desmente a teoria da indiferença. Luc pode sentir pena ou ternura, mas não oferece reciprocidade suficiente para sustentar a fantasia.
A autora mantém a escala da crise. Dominique sofre, mas o livro não transforma a dor em tragédia absoluta. A desilusão separa a experiência imaginada da vulnerabilidade real. O caso termina, e o mundo continua. Essa proporção fria sustenta o desconforto.

Citações famosas de Um Certo Sorriso
- “Eu minto para mim mesmo o tempo todo. Mas nunca acredito em mim.” Essa citação reflete o conflito interno e a autoconsciência do personagem. Ela mostra como as pessoas frequentemente tentam se convencer de coisas que sabem que não são verdadeiras. Ela capta a complexidade das emoções humanas e a luta entre o desejo e a razão.
- “A felicidade é sempre uma coisa frágil.” A escritora nos lembra que a alegria é fugaz e delicada. Essa citação destaca a facilidade com que circunstâncias ou escolhas podem interromper momentos de felicidade. Ela reflete o tema do Um Certo Sorriso sobre a impermanência do amor e da vida.
- “Não aprendemos nada com a felicidade. Tudo o que aprendemos, aprendemos com a dor.” Essa citação enfatiza a importância das lutas e dificuldades. A literata sugere que a dor nos molda e nos ensina mais do que a felicidade jamais poderia. Ela está ligada ao crescimento emocional que os personagens experimentam.
- “A liberdade é tão inebriante quanto o amor, e tão frágil.” Essa linha conecta a liberdade e o amor, mostrando como ambos proporcionam alegria, mas trazem riscos. Ela sugere que a verdadeira liberdade, assim como o verdadeiro amor, exige coragem e equilíbrio. Isso reflete o desejo de independência do protagonista.
- “As pessoas falam demais sobre o amor, mas não dizem o suficiente.” A autora critica a forma como as pessoas banalizam o amor com palavras superficiais. Ela sugere que o amor é mais profundo do que as palavras podem expressar. Essa citação reflete a exploração das complexidades do amor no Um Certo Sorriso.
Fatos curiosos sobre Um certo sorriso
- Escrito com apenas 21 anos de idade: Françoise Sagan escreveu Um certo sorriso quando tinha apenas 21 anos. Isso foi pouco depois de seu romance de estreia, Bonjour Tristesse, ter sido aclamado mundialmente. Sua juventude contribuiu para sua reputação de prodígio literário.
- Ambientado em Paris: Um Certo Sorriso se passa em Paris, uma cidade conhecida por seu romance e cultura. Ela capta a atmosfera da vida parisiense, especialmente os cafés, as ruas e a sensação de liberdade, o que aumenta o tom emocional da história.
- Admirado por Albert Camus: O estilo de escrita foi admirado pelo existencialista francês Albert Camus. Ambos os escritores exploraram temas de distanciamento emocional e a busca de significado, conectando suas obras à filosofia existencial.
- Elogiada por Truman Capote: Truman Capote admirava a escrita por sua honestidade e simplicidade. Ele a descreveu como tendo uma voz única que captava as complexidades da juventude, dos relacionamentos e da vulnerabilidade emocional.
- Conexão com a Universidade de Sorbonne: O protagonista do Um Certo Sorriso é um estudante da Sorbonne em Paris, refletindo o breve período que Sagan passou na universidade. Essa conexão acrescenta autenticidade ao ambiente acadêmico e juvenil da história.
- Conexão com o cinema francês New Wave: Os temas de amor e anseio existencial do livro repercutiram no movimento cinematográfico francês New Wave. Diretores como François Truffaut admiravam a exploração das emoções juvenis e seu estilo moderno e sincero de contar histórias.
A narradora admite sem confessar por completo
Dominique conta a própria conduta com uma lucidez que aproxima o leitor e, ao mesmo tempo, dificulta o julgamento. Ela não esconde a atração por Luc, a amizade com Françoise ou o tédio diante de Bertrand. Também reconhece o ridículo de algumas poses. Sua inteligência chega antes da responsabilidade.
O tom impede uma confissão penitente. A narradora não organiza os fatos para pedir absolvição, mas para lhes dar uma forma suportável. Expressões leves, observações irônicas e mudanças rápidas de assunto reduzem a solenidade do sofrimento. Essa economia corresponde à sua personalidade e ao estilo, mas funciona também como proteção.
As figuras secundárias expõem partes que Dominique preferiria controlar. Catherine força a ruptura com Bertrand. Pierre leva o segredo até Françoise. Alain, estudante que surge mais tarde, oferece uma amizade menos hierárquica e talvez uma relação mais compatível com a pessoa que ela se tornou. Nenhum deles resolve sua vida, mas todos impedem que Luc permaneça como único centro possível.
Em Um Certo Sorriso, a narradora não se torna moralmente exemplar. Ela aprende que pode se apegar, causar dor e sobreviver ao próprio desapontamento. Essa aquisição parece modesta, porém destrói a fantasia de que sua juventude e sua ironia a colocavam fora das regras emocionais aplicáveis aos outros. A experiência não produz pureza, apenas proporção.
Um Certo Sorriso é mais convincente quando preserva essa insuficiência. Uma punição severa transformaria o adultério em fábula conservadora. Uma celebração do prazer ignoraria Françoise e a diferença de poder entre os amantes. Ela mantém Dominique entre esses polos. Ela não é condenada à culpa eterna nem autorizada a chamar toda consequência de acaso.
O sorriso final não representa uma vitória
A prosa avança por frases claras, diálogos rápidos e observações que evitam ornamentação excessiva. Essa fluidez reproduz o ambiente social dos personagens, no qual cafés, viagens e relações parecem disponíveis sem grande esforço material. Ao mesmo tempo, a precisão deixa aparecer o vazio sob a elegância. A leveza formal não elimina o peso moral.
Paris sustenta a repetição; Cannes oferece um intervalo aparentemente sem consequências. Em 👉 Morte em Veneza, de Thomas Mann, uma viagem bela libera um desejo que ameaça a disciplina. Mann intensifica decadência, doença e mito. A autora prefere a desilusão comum. Nos dois textos, o lugar de férias suspende regras sem apagá-las.
O final de Um Certo Sorriso não é apenas abrupto ou indeterminado. Dominique se reconcilia com Françoise, aceita a transitoriedade da relação e compreende que ter amado não exige transformar o caso em destino. O sorriso do título sugere uma forma reconhecível de compostura. Ele pode conter memória, ironia, tristeza e disponibilidade para continuar.
Essa aceitação não equivale a triunfo. Luc preserva sua vida, enquanto Dominique paga o custo emocional do experimento. Françoise escolhe reabrir uma relação ferida. Bertrand sai do centro, mas sua dor não perde relevância. O equilíbrio final permanece desigual.
Publicado em 1956, o segundo romance de Françoise Sagan não amplia uma aventura breve até o tamanho de uma tragédia. A autora observa pessoas privilegiadas usando liberdade, estilo e inteligência contra o tédio. Depois mostra o limite da estratégia. Um Certo Sorriso termina quando Dominique olha para a própria história sem negá-la nem exigir que dure para sempre.